Saúde

Simplificação da rede

A modernização da cadeia da saúde, essencial para sua própria sustentabilidade, passa por novas tecnologias, facilitação dos processos e regulamentação. Planejamento estratégico é fundamental para reduzir custos e garantir eficiência.

Por Edson Valente

Janeiro-Março | 2018

Pergunte a um profissional qual o benefício que ele mais valoriza em uma empresa. Há grandes chances de ele responder que é o plano de saúde. Em seguida, pergunte a um departamento de RH quais os itens da folha de pagamento que mais o preocupam em termos de orçamento – certamente o plano de saúde também será lembrado.

O que explica a dicotomia de percepções – problema ou solução – de um mesmo componente no mercado de trabalho? A resposta passa pelos muitos elos que constituem a cadeia da saúde.

Rodrigo Aguiar, diretor de Desenvolvimento Setorial da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), afirma que o setor é complexo por natureza. “Suas operações dependem de muitos atores, cada qual com seus objetivos, princípios e interesses”, diz. “Nesse cenário, as ações são implementadas de forma muito fragmentada, com desperdício de recursos. Na medida em que aumentamos o controle de acesso às coberturas pelos beneficiários, são acrescidos custos significativos de administração e de transação”, detalha Aguiar.

O envelhecimento da população, a incorporação de novas tecnologias, o crescimento na utilização dos serviços, desperdícios e eventuais fraudes são outros aspectos que elevam os custos operacionais do sistema.


 

E isso acontece em âmbito mundial, de acordo com pesquisa da Deloitte “Global Health Care Outlook 2018”. O estudo aponta os fatores para as pressões financeiras que os sistemas de saúde, públicos e privados, têm enfrentado. As empresas do setor buscam maneiras de reduzir custos, além de explorar novas fontes de receita – como a capitalização de propriedade intelectual ou o investimento em joint ventures, para somar esforços na otimização dos procedimentos.

Para tanto, é necessária uma mudança dos modelos tradicionais. Os resultados do relatório indicam que é preciso pensar na saúde de forma holística, mudando o foco do tratamento para a prevenção. O levantamento de dados e a precisão em sua análise exercem um papel vital neste objetivo.

Uma das funções das novas tecnologias é favorecer a determinação de protocolos que orientem as tomadas de decisão dos profissionais do segmento. “Quanto mais aderirmos a esses padrões, maior é a previsibilidade de custos”, afirma Enrico De Vettori, sócio-líder da Deloitte para a indústria de Life Sciences & Health Care. “Com eles, os prestadores serão incentivados a seguir protocolos e metodologias. Torna-se mais fácil identificar aqueles que destoam no exercício da profissão, distorcendo seus fundamentos e sobrecarregando o sistema”, complementa.

Segundo Rodrigo Aguiar, ao tratar de organização, articulação e intermediação da cadeia de valor do setor, a composição da rede de estabelecimentos e profissionais de saúde credenciados pelas operadoras merece destaque. “Em geral, esses são os agentes de mercado que negociam com os fornecedores a compra dos insumos e materiais médicos utilizados na assistência”, diz. “Dada a grande variedade de opções disponíveis no mercado, torna-se necessário o mapeamento da cadeia de suprimentos, a fim de identificar as falhas que provocam desperdícios”, explica Aguiar.

Uma das tendências na procura por práticas mais eficientes, de acordo com Vettori, da Deloitte, são as instituições especializadas, como hospitais que só tratam dos males do coração ou do câncer. A especificação possibilita ganhos importantes e a formação de centros de excelência e referência. Ele considera investimentos em tecnologias disruptivas a melhor maneira para alcançar escala e derrubar custos. A incorporação de novas tecnologias não é a vilã da escalada de gastos.

O relatório “Global Health Care Outlook 2018”, de fato, recomenda às organizações que apostem na digitalização como estratégia de desenvolvimento, ainda que isso exija recursos financeiros em registros eletrônicos de pacientes e na interoperabilidade entre sistemas. É preciso também investir na capacitação da mão-de-obra que atuará com essas inovações.

Outro imperativo é aprimorar mecanismos de proteção dos dados, visando à qualidade no atendimento e à segurança dos pacientes pela mitigação de fraudes e de ameaças cibernéticas. Essas práticas requerem recursos eletrônicos atrelados ao armazenamento de informações em nuvem e à Internet das Coisas (IoT).

"O paciente e o empregados irão efetivamente reeducar e redirecionar a cadeia. O paciente, cada vez mais empoderado e conectado às redes sociais, tem a seu favor a comunicação sobre as opções de tratamento e como quer que elas se desenvolvam. E o empregador torna-se peça fundamental como fonte financiadora de todo o sistema privado."

Enrico De Vettori, sócio-líder da Deloitte para a indústria de Life Sciences & Health Care

Assim, em um processo de aprendizado com outras indústrias, as organizações de cuidados da saúde precisam ampliar o foco para além do preço e da qualidade dos serviços prestados, estabelecendo um relacionamento centrado no cliente e em sua fidelização. Entre os instrumentos disponíveis para esse objetivo, estão as redes sociais, o teleatendimento e as práticas de realidade aumentada.

O conhecimento de empresas de outros setores é também fundamental na trajetória para o “hospital 4.0”. Para o Dr. Miguel Cendoroglo Neto, diretor médico e superintendente do Hospital Albert Einstein, o uso de novas tecnologias aumenta a capacidade e aprimora o atendimento. “Em um primeiro momento, trouxemos parceiros que nos ajudam com essas inovações, e conseguimos estabelecer algoritmos de predição com machine learning. Todos os dias eles aprendem mais e refinam seus dados, o que deixa o modelo de predição cada vez melhor, mais apurado”, detalha.

Meios regulatórios governamentais ou internacionais também têm voz de comando nessas adaptações. “Se o próprio setor não se posicionar, será pressionado no que tange à adoção de boas práticas que enfrentem abusos, fraudes e desperdícios”, caracteriza Enrico De Vettori.

No Brasil, a ANS tem adotado medidas e iniciativas com o intuito de reduzir desperdícios e aumentar a eficiência das operadoras. “A agência tem um grupo de trabalho que debate a implementação de modelos inovadores de remuneração na saúde suplementar, os quais vinculem o pagamento dos serviços prestados à qualidade do cuidado e ao valor agregado, afastando-se do modelo atual, que paga por procedimento”, diz Rodrigo Aguiar.

A ANS trabalha na implementação do Registro Eletrônico em Saúde (RES), ferramenta que busca mitigar os impactos da fragmentação das informações ao estabelecer um repertório único, integrado e interoperável de informações clínicas e administrativas. “Temos ainda a criação do Portal de Informações do Beneficiário da Saúde Suplementar (PIN-SS), que confere transparência ao setor ao disponibilizar os custos e preços praticados no mercado aos beneficiários, além de informações sobre consultas, exames e internações. Para as Pessoas Jurídicas, o portal reúne os critérios técnicos adotados para reajustes, bem como a demonstração da memória de cálculo realizada para a definição do percentual aplicado”, explica o diretor da ANS.

Ainda com relação à transparência, a ferramenta Troca de Informações na Saúde Suplementar (TISS) estabelece um padrão obrigatório para as transferências eletrônicas de dados de atenção à saúde dos beneficiários. Outra iniciativa, o Programa de Qualificação das Operadoras (PQO) avalia anualmente a qualidade das operadoras de planos privados no cuidado à saúde e na gestão de receitas, despesas e recursos financeiros. O desempenho de cada empresa é mensurado pelo Índice de Desempenho da Saúde Suplementar (IDSS).

Diagnóstico integrado

Uma das empresas atentas a essas movimentações é o Grupo Fleury Medicina e Saúde. Como o grupo atua na área de medicina diagnóstica, tem uma percepção bem acurada de seu impacto em todos os processos da cadeia. “Quando tratamos o indivíduo, um diagnóstico feito com qualidade e precisão, ou resolubilidade, é imprescindível para que o médico tome decisões acertadas nos cuidados com os pacientes”, exemplifica. “Não entregamos só o resultado do exame, e sim toda uma solução diagnóstica integrada”, diz a Dra. Jeane Tsutsui, diretora executiva de Negócios do grupo. “Priorizamos a realização do exame correto no momento adequado.” Para atingir a precisão de conteúdo, os resultados dos exames de um paciente são congregados em um único relatório.

O Grupo Fleury preocupa-se ainda em trabalhar com protocolos de investigação diagnóstica. Para isso, utiliza algoritmos na definição dos exames mais indicados para determinada condição clínica, levando em conta o perfil e o histórico de cada paciente. A medicina genômica e de precisão, que mapeia o DNA para identificar as doenças que a pessoa está mais propensa a desenvolver, também está no radar do laboratório.

O grupo conta com um corpo de profissionais altamente qualificados para lidar com essas metodologias mais avançadas, de acordo com a Dra. Jeane Tsutsui. Outra estratégia é investir na educação médica, tanto pela disponibilização de conteúdo didático em portal e revista próprios como ao promover eventos em associações da categoria, sem custos para os participantes. “Existem conhecimentos que são muito específicos e causam dúvidas entre os que não são especialistas em determinada área da medicina. Trabalhamos na disseminação dessas informações”, diz a médica.

A informação, aliás, se mostra como um dos grandes determinantes de transformação na nova era que hoje se impõe à cadeia da saúde.