Gestão financeira

O futuro digital das finanças

CFOs ganham protagonismo crescente diante da revolução tecnológica que redefine a sua função. As inovações trazem maior eficiência aos processos, mas demandam um perfil mais analítico para o executivo.

Por Maíra Teixeira

Abril-Junho | 2017

O mundo interconectado traz uma enorme quantidade de informações e amplia a necessidade de respostas cada vez mais ágeis para os negócios. As tecnologias digitais, muitas delas disruptivas, surgem a cada momento e tiram o Chief Financial Officer (CFO) de seu antigo isolamento para tornar-se um dos principais parceiros do negócio. A necessidade de realizar a transição de modelos antigos (chamados sistemas legados, como os mainframes) para os 100% digitais fará com que o CFO tenha de incorporar novas habilidades ao seu perfil analítico. A possibilidade de estruturação de dados e o acesso a informações de qualidade em menor tempo vão liberar a inteligência financeira para o relacionamento com todas as áreas da organização e mesmo os públicos de interesse externos.

O estudo “Hora Decisiva – Finanças em um mundo digital”, feito pela Deloitte com CFOs de empresas de todo o mundo, identificou sete novas ferramentas que indicam como superar o desafio de atualizar e manter em dia o plano de negócios, abraçando a nova fase de maneira responsiva. Essas inovações já estão, mesmo que de forma incipiente, no cotidiano da humanidade, mas precisam ser adotadas e encabeçadas pelo time de finanças para conferir resultados às empresas.

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A resposta para essa transformação cria a demanda por um novo perfil de CFO, com grande capacidade analítica e com forte desenvolvimento relacional. Em resumo, as novas ferramentas tecnológicas serão aliadas do CFO e farão com que a empresa seja ainda mais dependente de sua equipe. É preciso adequar-se e ficar atento à quarta revolução digital para não perder oportunidades reais de lucro, além de construir um modelo de negócios mais eficiente, o que leva ao fortalecimento da imagem e da marca global.

“O grande problema no mundo financeiro é quando você tem de intuir sobre alguma coisa. A tecnologia diminui a interferência da intuição para a tomada de decisão. As decisões passam a ser mais assertivas, há ganho em eficiência e menos subjetividade”, afirma Othon Almeida, líder do CFO Program e de Market Development da Deloitte no Brasil. Nessa transformação, as áreas financeiras passam a ter de se inserir em todas as nuances e decisões, tornando-se um vetor. É tempo de assumir protagonismo. A tecnologia e o fator digital trazem novos elementos, que estruturam dados em grande volume e eliminam a intuição do processo.

“O grande problema no mundo financeiro é quando você tem de intuir sobre alguma coisa. A tecnologia diminui a interferência da intuição para a tomada de decisão. As decisões passam a ser mais assertivas, há ganho em eficiência e menos subjetividade.”

Othon Almeida, líder do CFO Program e de Market Development da Deloitte no Brasil

As novas ferramentas têm de ser acompanhadas pela renovação da visão do CFO, além da capacitação da equipe de finanças em termos de processamento analítico, conhecimento de estatística e também de relacionamento. O intuito dessas tecnologias é liberar o tempo dos profissionais, para que estes possam dedicar-se mais ao entendimento do negócio. “O novo CFO tem de conseguir analisar os dados e, ao mesmo tempo, conversar com a área comercial para discutir questões relacionadas a precificação e políticas de desconto. Tem de conversar com a área de Recursos Humanos, ajudando em questões de folha de pagamento, de bonificação. Tem de entender de operações, discutir custeio. Esse novo perfil vai permitir que o profissional transite em todas as áreas e ganhe mais relevância”, explica Fabio Perez, diretor do CFO Program da Deloitte e líder de consultoria em Finanças no Brasil.

“Os líderes de negócios que pretendem competir no mundo digital precisarão da ajuda do CFO para processar mais informações, com a maior velocidade possível, e transformar esses dados em insights profundos. Isso exige novas tecnologias e uma equipe curiosa e habilitada para utilizá-las.”

Fabio Perez, diretor do CFO Program da Deloitte e líder de consultoria em Finanças no Brasil

Sandy Cockrell, líder global do CFO Program da Deloitte, fala sobre a jornada digital da gestão financeira

Sandy Cockrell, líder global do CFO Program da Deloitte, afirma que as organizações têm de entender que a área de finanças é parte fundamental da estrutura, pois, com o novo cenário tecnológico, essa é a área que cria e dissemina informação a partir dos dados. “E isso tem de ser feito com a tecnologia certa. Temos de ter uma área de finanças que entenda como a empresa ganha dinheiro e como aliar isso à estratégia. Pessoas certas, processos adequados e ferramentas. O CFO é o único que pode ir a todas as áreas de uma organização e fazer a pergunta que quiser. É preciso considerar isso para conquistar a eficiência operacional”, comenta Cockrell.

Preparadas para a transição

Para enquadrar-se às novas tecnologias, é preciso avaliar em que estágio a organização está e, a partir disso, traçar a estratégia para uma transição gradual. Para fazer de forma adequada, os CFOs podem começar mapeando uma transformação financeira, focando nos recursos vencedores da empresa. “Tenha um plano mestre em mente, mas execute um passo de cada vez, pois tudo está mudando rapidamente. Não faça grandes apostas até que você se sinta preparado e entenda os riscos potenciais”, recomenda Othon Almeida, da Deloitte.

Os novos entrantes, empresas que já nasceram digitais, como as startups e as fintechs, já trabalham em uma plataforma 100% online, chamada de terceira plataforma, explica Adriano Chemin, vice-presidente da Oracle para a América Latina. Para Chemin, essas empresas inovadoras devem inspirar a transição das que pretendem se atualizar. As nativas digitais estão na terceira plataforma tecnológica e trabalham integrando cloud, big data, mobiles e social business. Estão em grande vantagem nesse aspecto, pois tudo isso que é construído com o conceito nativo de terceira plataforma tem mais agilidade.

Quem tem um legado da primeira plataforma (que utiliza terminais e mainframes) ou segunda plataforma (internet e lan) tem mais dificuldade em realizar as mudanças de processos. “‘Eu quero integrar a Internet das Coisas ao meu processo de gestão, posso?’ Pode, mas tem de construir todo o processo de integração, com tecnologias de gerações diferentes. Tudo isso gera tempo e custo. Quanto mais atualizada, melhor para a empresa. Acho que a transição não é uma questão de escolha, é questão de tempo”, afirma Chemin.

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E o futuro?

As principais apostas, segundo os CFOs ouvidos pela Mundo Corporativo, são computação cognitiva, cloud, robótica e blockchain, pelo seu potencial para promover as maiores rupturas e por serem exponenciais. A robótica e a computação cognitiva são exemplos, em projetos como os carros e call centers autônomos. Um dos impactos positivos dessa tecnologia é o aumento da longevidade.

“Espera-se que o custo das coisas, pelo uso da tecnologia, vá diminuir porque se automatiza todo o processo, por exemplo, da produção de alimentos. Barateando isso, são diminuídos os custos de alimentação. Quando falamos que se poderá trabalhar de qualquer lugar do mundo, também se resolvem problemas de concentração populacional e custo de vida nos grandes centros. Espera-se que a população vá viver mais com um custo de vida menor”, acredita Adriano Chemin, da Oracle.

Digitais de nascença

Três empresas nativas digitais contam a sua experiência de gestão financeira

Peixe Urbano

Em 2010, o Peixe Urbano apresentou o conceito de compras coletivas ao consumidor brasileiro e criou o nicho de vendas de cupons de desconto para restaurantes. Hoje, depois da venda para a gigante de e-commerce chinesa Baidu, há dois anos, a CFO Graciela Ferrero credita o sucesso da marca, uma nativa digital, à integração de todas as áreas, via inputs da área financeira.

“Com as ferramentas de análise de dados e visualização compartilhadas com todos, criamos um modelo de informação em tempo real. Isso possibilita a tomada de decisão ágil e coordenada. Não esperamos fechar o mês para ver e dividir os resultados; olhamos momento a momento. Isso leva a uma concentração de esforços eficiente, com capacidade de predição.” Graciela também aponta a transparência financeira como um agregador do capital humano. “Os funcionários sabem onde a empresa está a cada instante.”

Para a executiva, o maior desafio é colocar todas as gerações em um mesmo nível de entendimento das tecnologias. “Precisamos lidar com todas as gerações e capacitar os nativos digitais em suas fragilidades, como a ânsia imediata de resultados, ao passo que temos também de integrar as gerações anteriores a todas as plataformas disponíveis. Só assim todos se entendem e trabalham em harmonia.”

Banco Original

Para Carlos André Hermensindo da Silva, CFO do Banco Original, as grandes dificuldades de uma empresa que não nasceu digital são ultrapassar quatro barreiras de entrada. “São elas: determinar o nível de investimento necessário para dar o passo adiante, medo, apego ao modelo do passado e, por fim, a necessidade de pensar a concepção. Isso só será possível com um CFO que tenha visão disruptiva e que se preocupe em buscar talentos que ajudem na transição.” Assim, segundo o executivo, será possível determinar os passos para a transição de tecnologia e ter a capacidade de engajar e capacitar seus recursos humanos às novas plataformas.

“Uma dica é a utilização de cloud, ferramenta muito importante e bem disseminada, além da inclusão no planejamento de todas as novas ferramentas pensando em como utilizar a ajuda de API (interface de programação de aplicativos). Usamos isso no nosso openbanking, que permite que a solução de uma fintech seja interligada com nosso sistema para criar um meio de pagamento. Esses avanços tornam a operação mais atualizada, nos colocam à frente.”

Um exemplo já em uso de API é o mapa de como chegar em um restaurante. Ao abrir o mapa, quem navega será levado ao Google Maps, que é uma API desenvolvida para inseri-lo em um determinado local de sua página.

“No Banco Original, já nascemos usando as tecnologias da terceira onda nos processos internos, com clientes e fornecedores. Nosso conceito de inovação é pensado por um time exclusivo, que traz soluções antes de o mercado desenvolvê-las em grande escala. Somos fastmovers do setor e isso nos dá um diferencial, como utilizar mais rápido tecnologias como o blockchain. Será uma realidade em breve.”

Pay Pal

Para o CFO do Pay Pal para a América Latina, Lucas Medola, as novas tecnologias são essenciais para o crescimento das empresas, especialmente as globais, mas também impõem desafios ao ritmo de trabalho das pessoas. “Hoje a minha meta é diária, não existe esperar a semana, ou o mês. E nisso, além da autonomia que todas as áreas têm de ter, é preciso poder analisar tudo de forma veloz, visual e correta. O analytics avançado e a visualização são fantásticos para o ramo de soluções financeiras, mas podem não ser essenciais para outros setores.”

O Pay Pal começou no início dos anos 2000 como uma empresa de meios de pagamentos e tem evoluído para construção de soluções financeiras integradas. “As respostas que dou para o meu consumidor precisam acompanhar o tempo de resposta aos processos internos. E isso demanda todo um planejamento compartilhado. Sei o que cada um da minha equipe está fazendo, mas cada um tem sua parte na tomada de decisão. Com as novas ferramentas, eu faço esse acompanhamento das prioridades em tempo real.”

Medola afirma que a empresa que vai fazer a transição precisa ter em mente que não pode se esquecer do core business. “De nada adianta investir em tecnologia e deixar o negócio de lado. Precisa fazer junto: olhar para a sua atividade que traz retorno e investir gradualmente na melhoria dos processos. Toda empresa tem limitação de recursos, de pessoas e de investimento. Por isso, antes de fazer, é preciso investigar o que dará mais retorno. Saber quanto de valor agregado as ferramentas vão trazer, para então partir para uma implementação planejada.”