Infraestrutura

Inteligência cidadã

Na era da informação, a definição de uma cidade inteligente é aquela em que as pessoas, os serviços e os recursos estão conectados para oferecer, a partir da integração do poder público e da iniciativa privada, as condições para a qualidade de vida e o desenvolvimento de negócios.

Por Marco Antonio Barbosa

Abril-Junho | 2017

“Vamos trabalhar com recursos eletrônicos para melhorar a vida das pessoas. A ideia é transformar serviços anacrônicos em serviços novos; temos um Estado do século XIX e uma população com demandas do século XXI”. Com essas palavras, o secretário municipal de Inovação e Tecnologia de São Paulo, Daniel Annenberg, anunciou sua intenção de acelerar o processo de transformação da capital em uma smart city. A Secretaria, recém-criada pelo prefeito João Doria, nasceu com a missão de integrar e digitalizar as diversas instâncias da gestão pública de São Paulo e de construir novos formatos de colaboração entre a Prefeitura e outros setores da sociedade, a fim de aumentar a “inteligência” da maior metrópole brasileira. “Queremos conciliar ações do governo, da iniciativa privada e das universidades, pensando em soluções para demandas reais. Cidade inteligente exige um governo inteligente”, afirmou Annenberg.

O conceito de smart city vem sendo debatido globalmente desde o começo da década de 2000. Em linhas gerais, trata-se de um modelo de urbanização e gestão pública que emprega os recentes avanços da tecnologia para tornar as cidades mais eficientes e seguras. A transformação de uma cidade tradicional em uma smart city envolve o uso extensivo de sistemas digitais de comunicação e informação por parte das prefeituras e de seus órgãos administrativos. Aplicados ao planejamento e à coordenação de escolas, sistemas de transporte, hospitais, redes elétricas e telefonia, abastecimento de água e outros serviços, esses sistemas elevam a eficiência desses recursos para a população. Com a disseminação de dispositivos integrados por meio da Internet das Coisas (IoT), a administração pública pode coletar dados disponibilizados pelos cidadãos e usar essas informações para melhorar a oferta de serviços – e também aprimorar sua comunicação com a comunidade.

Todos esses movimentos não são novidades nas economias desenvolvidas. Um levantamento anual feito pelo Instituto de Estudos Superiores da Empresa (IESE, da Espanha) analisa o grau de “inteligência” de 181 metrópoles em 80 países, enfocando aspectos que incluem governança, planejamento urbano, atividade econômica, coesão social e, claro, tecnologia. O mais recente ranking, de 2016, traz nove cidades europeias e outras nove da América do Norte entre as 25 mais bem colocadas.

  • 1. Nova York (Estados Unidos)
  • 2. Londres (Reino Unido)
  • 3. Paris (França)
  • 4. São Francisco (Estados Unidos)
  • 5. Boston (Estados Unidos)
  • 6. Amsterdã (Holanda)
  • 7. Chicago (Estados Unidos)
  • 8. Seul (Coreia do Sul)
  • 9. Genebra (Suíça)
  • 10. Sydney (Austrália)

Fonte: Índice IESE Cities in Motion (2016)

O Brasil viu três de suas representantes no ranking do IESE caírem na pesquisa: São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba perderam entre 16 a 26 posições cada. Iara Pasian, sócia-líder da Deloitte para Infraestrutura e Setor Público, reconhece que a ideia de cidades inteligentes ainda está em “um estágio embrionário” no País. “Estamos distantes do conceito completo. A construção de uma smart city envolve um modelo de infraestrutura de tecnologia que as cidades brasileiras ainda não são capazes de expandir em larga escala”, pondera a sócia da Deloitte. Para Iara, antes de pensar na transformação para a cidade inteligente, nossas prefeituras têm de melhorar muito a qualidade dos serviços públicos, de maneira geral.

"Para implantar uma gestão smart, o serviço público precisa atingir um nível de excelência no atendimento em temas como transporte, energia, saneamento e segurança."

Iara Pasian, sócia-líder da Deloitte para Infraestrutura e Setor Público

Para alavancar o desenvolvimento das cidades inteligentes brasileiras, um caminho é a união (de esforços e investimentos) do poder público com a iniciativa privada, diz Iara. O secretário da gestão paulistana, Daniel Annenberg, afirmou que “quanto mais a prefeitura se abre, mais surgem possibilidades para novos projetos, novas startups e serviços inovadores”. Eis uma das razões para a cidade liderar o ranking Connected Smart Cities (2016), compilado pela consultoria Urban Systems e que enfoca apenas municípios brasileiros. O levantamento levou em conta não apenas o grau de digitalização da infraestrutura municipal, mas também indicadores sociais, econômicos, ambientais e de desenvolvimento humano.

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“As empresas privadas podem ajudar no desenvolvimento colaborativo de soluções”, lembra o CEO da Urban Systems, Thomaz Assumpção. “Departamentos de inovação pensam o tempo todo em soluções de mercado que também podem ser adaptadas para o modelo de gestão pública. Mesmo com a contrapartida necessária à iniciativa privada, o impacto positivo dessas cooperações para a sociedade geralmente compensa”, diz o consultor, que enxerga possibilidades promissoras em setores como saúde, educação e mobilidade. “Com o uso de recursos como o big data e sistemas de IoT, informações sobre origem e destino de usuários de transportes públicos, perfis de consumo e hábitos de saúde passam a fazer parte do planejamento urbano”, aponta Assumpção.

Quanto aos gaps entre o desenvolvimento das smart cities brasileiras e outras metrópoles do mundo, o especialista lembra: “O Brasil é um país continental, muito extenso. Os avanços nos conceitos e nas implementações de ações para cidades inteligentes são pontuais em algumas cidades, enquanto outros países menores possuem uma maior abrangência de suas ações”. Um bom exemplo está na vizinha Argentina. A capital Buenos Aires vem sendo apontada nos últimos anos como um paradigma de progresso na incorporação de recursos digitais na gestão urbana, com sistemas inteligentes aplicados a áreas como energia elétrica, comunicações e mobilidade. A aplicação de big data no planejamento do transporte público e no controle de tráfego é um caso, assim como o uso de analytics para traçar o perfil dos turistas que visitam a cidade e a oferta de vários tipos de serviços públicos via aplicativos para dispositivos móveis.

“A tecnologia oferece melhores formas de nos conectarmos uns com os outros, de prestar melhores serviços e gerenciar recursos de forma mais eficiente. Cada vez mais, as empresas do setor privado começam a seguir esta linha de trabalho e as políticas públicas devem ir pela mesma direção”, afirma Andy Freire, ministro da Modernização, Inovação e Tecnologia de Buenos Aires. A ideia de que uma cidade inteligente é aquela que está aberta para parcerias inovadoras entre o governo e o empresariado também foi encampada pela prefeitura portenha. “É imprescindível que façamos a articulação entre empresas, organizações não governamentais, investidores e aceleradoras de negócios”, diz Freire. O esforço inclui o estímulo a centros de pesquisa em tecnologia, como o Centro Metropolitano de Design, e concursos de fomento a startups com base em inovação digital.

De volta ao Brasil, as ações mais concretas encontram-se no setor elétrico, com a concretização de Parcerias Público-Privadas (PPPs) que irão ocorrer na maioria das capitais federais. A incorporação de recursos digitais à transmissão e à distribuição de energia elétrica possibilita a criação dos chamados smart grids: redes elétricas “inteligentes”, que trabalham com muito mais eficiência e confiabilidade. Essas redes integram a espinha dorsal de uma infraestrutura tecnológica – do tipo que falta aos nossos municípios. “A indústria de componentes e equipamentos eletrônicos para smart grids está bem madura e pronta para aproveitar as oportunidades que surgirem. Setores como saneamento e transporte ainda estão um pouco atrás”, nota Iara Pasian, da Deloitte.

As experiências positivas dessas cidades indicam que a conexão entre os setores público e privado para o aprimoramento da infraestrutura é um caminho para que o espaço urbano ganhe em inteligência e melhoria na vida de seus cidadãos.

A adoção dos smart grids e das PPPs nos serviços de energia como ponta de lança no processo foi encampada pelo Governo Federal. O movimento é capitaneado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC) e conta com o apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com linhas de crédito para projetos de eficiência energética. “No MCTIC, reunimos os principais pontos para o desenvolvimento e a regulação dessas tecnologias, o que é fundamental para direcionar os investimentos nesse setor”, explicou Eduardo Soriano, coordenador-geral de Tecnologias Setoriais do Ministério. “É um trabalho de longo prazo, no qual a regulação, o desenvolvimento tecnológico e a questão industrial andam juntos. O MCTIC tem um setor de energia e também concentra as telecomunicações que são aplicadas às redes inteligentes. Estamos em condições de alavancar a inovação dentro desse tema no Brasil.”

A promessa das cidades inteligentes – Deloitte e AT&T

Na edição 2017 do Fórum Econômico Mundial, a Deloitte e a AT&T foram copatrocinadoras do painel Smart Cities – Smart Nations. Acesse pelo link abaixo um infográfico que permite entender melhor o futuro das smart cities.