Mercados asiáticos

Horizontes do oriente

China, Japão e Coreia do Sul mantêm perspectivas consistentes de investimentos no Brasil, e também oferecem oportunidades para empresas que queiram desbravar as fronteiras orientais.

Por Mauricio Fernandes

Abril-Junho | 2017

“Não importa se um gato é preto ou branco, contanto que ele cace ratos.” Uma das frases mais famosas do líder chinês Deng Xiaoping, pai do chamado socialismo de mercado, resume a visão de muitos empresários brasileiros que hoje sentem mais esperança nas potências asiáticas do que em parceiros comerciais tradicionais do Ocidente para ajudar a enfrentar a crise econômica dos últimos anos. No entanto, como fazer com que a distância até China, Japão e Coreia do Sul fique cada vez menor? As lições não são poucas.

Líderes globais da Deloitte para o mercado asiático falam sobre as perspectivas de negócios entre o Brasil e a região.

Especialistas em empresas asiáticas são unânimes em apontar as principais dificuldades para brasileiros aproveitarem as oportunidades no Extremo Oriente: assimilar culturas milenares, aceitar que os investimentos dali são sempre de longo prazo, sem urgências, e oferecer regras claras e confiáveis para demonstrar o potencial de expansão do relacionamento. Sem isso, possíveis injeções de dezenas de bilhões de dólares podem ir para o ralo.

Números de fontes públicas consolidados e analisados pela Deloitte ajudam a mostrar o otimismo com a Ásia em um momento no qual os Estados Unidos, sob nova administração, se afastam de acordos comerciais multilaterais. Somados os investimentos diretos feitos por China e Hong Kong, quase US$ 20 bilhões chegaram ao Brasil em 2016 – no ano anterior, foi quase o mesmo montante. Não chega aos US$ 22,7 bilhões de 2011, mas a tendência clara é que a crise não afastou esses investidores.

O Japão injetou no Brasil por volta de US$ 1,6 bilhão em 2016, quase a metade do ano anterior. Em 2011, pico dos investimentos do Japão no País, o montante chegou a US$ 8 bilhões.

"A crise do Brasil não para totalmente os investimentos da Ásia porque eles não gostam muito do curto prazo. Há incertezas, sim, mas há oportunidades. Acho que tem muito dinheiro vindo agora e em 2019. Com a resolução das dúvidas políticas e econômicas, esse potencial vai ser ainda maior."

George Warnock, líder global da Deloitte para atendimento aos clientes chineses, japoneses e coreanos

Já a Coreia do Sul, cuja presença no Brasil é fortalecida por três empresas (Samsung, LG e Hyundai), viu seu investimento direto subir de US$ 287 milhões em 2015 para US$ 546 milhões no ano passado. Em 2010, esse total chegou a US$ 1,1 bilhão.

Números como esses levam George Warnock, líder global da Deloitte para atendimento aos clientes chineses, japoneses e coreanos, a acreditar que os investimentos devem voltar a crescer e se manter em bases consistentes. Para ele, a crise do Brasil não paralisa os investimentos da Ásia, pois eles não se prendem ao curto prazo.

Economias complementares

Entre os três gigantes asiáticos, como é de se esperar, a grande oportunidade para o Brasil está na China, hoje o maior parceiro comercial do País e agora com US$ 560 bilhões a serem investidos em infraestrutura por aqui nos próximos cinco anos. Ainda que a economia chinesa tenha previsões de crescimento mais baixo, de 6,5% neste ano, a base hoje é muito maior e ainda permite aportes de recursos para bons projetos em todo o mundo.

“Com o aumento consistente da economia chinesa, apesar de o crescimento percentual atualmente não estar mais nos dosi dígitos, o volume financeiro continua a ser cada vez maior e importante”, pondera Paulo de Tarso, líder do Chinese Services Group da Deloitte no Brasil.

"A China passou mais de uma década crescendo em dois dígitos. O novo padrão agora é crescer por volta de 6% sobre uma base cada vez mais crescente, e isto representa que cada vez mais haverá oportunidades de investimentos chineses no Brasil e de aumento da parceria estratégica entre os dois países. Significa que temos de ajudá-los a crescer com mais qualidade."

Paulo de Tarso, líder do Chinese Services Group da Deloitte no Brasil

Apesar de dúvidas sobre o quanto a segunda maior economia do mundo crescerá em 2017, a expectativa já é de uma injeção de pelo menos mais US$ 20 bilhões na compra de ativos brasileiros neste ano, igualando o resultado de 2016, segundo a Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China (CCIBC). Apenas os Estados Unidos têm atraído mais investimentos chineses neste momento, o que demonstra o tamanho dos elos brasileiros com o gigante asiático.

"Tanto a China como outras potências asiáticas vão precisar do Brasil para continuarem crescendo nos próximos anos."

Rosa Yang, líder global do Chinese Services Group da Deloitte

“As economias chinesa e brasileira são complementares”, diz Rosa Yang, líder global do Chinese Services Group da Deloitte. Para Rosa, tanto a China como outras potências asiáticas vão precisar do Brasil para continuar a crescer. “Aqui vocês têm matérias-primas fundamentais, ativos interessantes e uma plataforma importante para operar em toda a América do Sul.”

Os setores nos quais os chineses mais investem continuam sendo petróleo, gás e energia elétrica, em especial, depois de a State Grid comprar a retransmissora de energia paulista CPFL e a China Three Gorges adquirir hidrelétricas que eram da CESP. Contudo, os especialistas já veem um provável desembarque no Brasil de empresas de transporte e agronegócio. A construtora Concremat e as empresas agrícolas Fiagril e Belagrícola já contam com investimentos chineses – lista que pode aumentar em breve.

“Recebemos muitos contatos de várias empresas chinesas; elas querem atuar no Brasil e tenho certeza de que muitas estarão aqui em breve”, afirma Charles Tang, presidente da CCIBC. “Os ativos no Brasil estão mais baratos ultimamente, isso é muito atrativo. E as empresas que estão chegando agora entendem melhor como o País funciona. Por isso, fazem negócios menos arriscados e com maior potencial.”

Cadeia global

Por seu incrível mercado consumidor, a China, além de investir no Brasil, também consegue levar empresas brasileiras para operar por lá. Uma delas é a Marcopolo, uma das maiores fabricantes de ônibus da América Latina.

A empresa começou na região com um centro de desenvolvimento de produtos fora do Brasil. O custo da mão de obra na Ásia e a ampla cadeia de fornecedores viabilizaram vários projetos impossíveis de serem atendidos até então. Em seguida, veio uma linha de produção para atender a novas demandas e, por fim, a China apareceu imediatamente como uma opção de compra de matéria-prima para as fábricas do Brasil e dos demais países onde a Marcopolo opera, em um verdadeiro global sourcing.

José Luiz Moraes Goes, gerente executivo de Negócios Internacionais da Marcopolo para a região Ásia-Pacífico e Índia, acredita que, apesar das inúmeras dificuldades para se instalar na área, o investimento vale a pena, inclusive para trazer novas tecnologias aprendidas por lá para o Brasil.

“Os principais desafios são leis de proteção ao mercado local, acesso à informação (já que existem vários sites bloqueados), distância do Brasil (que impacta custos de frete elevado e maior tempo de entrega), fuso horário e idioma, já que nem todos falam inglês”, afirmou Goes. O executivo acredita que, em até cinco anos, o investimento da Marcopolo na China já terá sido compensado.

Laços históricos

Outro setor no qual há crescente interesse da China é o bancário. Nos últimos dois anos, foram destinados ao Brasil US$ 15 bilhões em linhas de crédito dos bancos institucionais chineses – isso representa quase R$ 50 bilhões. Só a Venezuela recebeu mais, de acordo com um estudo do think-tank Dialogo Interamericano publicado no fim de 2016.

A força dessa relação foi pesadamente testada em março de 2017, após a operação “Carne Fraca”, que levou o país asiático a suspender importações da cadeia de frigoríficos do Brasil. Inicialmente a China barrou quase toda a carne brasileira. Entretanto, em poucos dias, após a atuação direta do Governo Federal, as barreiras caíram. A partir dessa demonstração de confiança, os chineses devem seguir como principais importadores de produtos de carne e derivados do Brasil. Somente em 2016, houve US$ 1,75 bilhão em negócios na área.

No caso do Japão, os principais investimentos no Brasil ainda devem concentrar-se na indústria. Todavia, ter pressa para obter resultados é o pior que um empresário brasileiro pode fazer ao tratar com empresas nipônicas. É essa a principal lição que ensina Shuichi Morishige, líder do Japanese Services Group da Deloitte no Brasil. “O empresário japonês gosta de paciência, tem olhos no futuro de 20, 30 anos. Não adianta esperar um pico de investimento no ano que vem”, diz.

"O empresário japonês gosta de paciência, tem olhos no futuro de 20, 30 anos."

Shuichi Morishige, líder do Japanese Services Group da Deloitte no Brasil

É essa também a visão de Hitoshi Matsumoto, líder global do Japanese Services Group da Deloitte. Matsumoto acredita que as empresas brasileiras devem estreitar seus laços com o Japão não só falando de oportunidades de negócios, mas também evocando a antiga relação entre os dois países – em 2018, serão celebrados 110 anos do início da imigração japonesa.

"Brasil e Japão têm laços históricos de imigração, e é também por isso que os investimentos continuam independentemente do bom ou do mau momento. Essa relação especial importa muito na hora de fazer um negócio com asiáticos."

Hitoshi Matsumoto, líder global do Japanese Services Group da Deloitte

“Brasil e Japão têm laços históricos de imigração, e é também por isso que os investimentos continuam, independentemente do bom ou do mau momento. Essa relação especial importa muito na hora de fazer um negócio com asiáticos, podem acreditar nisso”, diz Matsumoto, que é também torcedor do Kashima Antlers, time em que o jogador de futebol Zico encerrou a carreira. “Futebol pode parecer um detalhe, mas, para nós, esses vínculos afetivos importam muito. Eles nos dão confiança de que não estamos entrando em um espaço desconhecido.”

Engana-se quem pensa que o baixo crescimento no Japão nos últimos anos e as dificuldades políticas pós-impeachment na Coreia do Sul podem afetar decisivamente os investimentos das empresas desses países no exterior, diz George Warnock, da Deloitte. “Empresas japonesas e coreanas precisam do exterior exatamente porque a base interna não oferece tantas novidades. São países como o Brasil, com um grande mercado consumidor, que podem ajudar essas empresas a seguirem como líderes em seus mercados.”