Boas práticas corporativas

A pegada socioambiental

Eficiência energética, economia de água, integração social e equidade de gênero são algumas das bandeiras já comuns às grandes corporações. O esforço agora vai no sentido de convergir essas iniciativas ao core business.

Por Marleine Cohen

Setembro-Novembro | 2018

“Quando se tem muito poder, se tem muito dever. E a lição de casa é a inclusão social e o meio ambiente.” A máxima, formulada pela diretora de Sustentabilidade da L’Oréal do Brasil, Maya Colombani, reverbera a tendência verificada cada vez mais no meio corporativo brasileiro, de aproximar core business e metas socioambientais. “Há um consenso de que é preciso incorporar os princípios da sustentabilidade no negócio”, atesta o sócio-líder da Deloitte para o Government & Public Services, Elias de Souza. Os 3Ps (People, Planet, Profit) já não são um modismo que alça as organizações mais engajadas às manchetes dos jornais, mas um conceito sólido e abrangente que as leva a calcular, na ponta do lápis, investimentos em processos eficientes e benéficos tanto para si quanto para o planeta e a sociedade.

"As novas gerações estão atentas às questões de impacto social. Condicionam o consumo à filosofia adotada pela empresa e exigem dela um posicionamento claro perante os dilemas ambientais existentes."

Elias de Souza, sócio-líder da Deloitte para Government & Public Services

Na PepsiCo, a iniciativa “Mulheres com Propósito”, recém-instituída no Brasil em parceria com a Fundes (Foundation for Sustainable Development in Latin America) depois de ter sido implementada na Argentina, Venezuela, México e Colômbia, vai consumir US$ 1,8 milhão nos próximos cinco anos. Consiste em promover a equidade de gênero no País, oferecendo oportunidades de educação, empreendedorismo e emprego a cerca de 2 mil mulheres em situação de risco social – a começar por São Paulo, onde, até o final do ano, 400 delas, pelo menos metade, negras – receberão capacitação.

Segundo Cristiane Lopes, gerente de Cidadania Corporativa da PepsiCo, “diversidade e engajamento são valores fundamentais para a empresa e a forma como ela atua como cidadã corporativa global”. A igualdade entre os sexos, que, como ela lembra, está associada aos Objetivos do Milênio da ONU, faz parte de uma agenda maior, o programa “Mulheres com Propósito”, ao qual a empresa reservou US$ 100 milhões até 2025, para apoiar 12,5 milhões de mulheres em todo o mundo.

A importância dos recursos alocados mostra que não se trata de caridade: “A igualdade de gênero tem tido avanços na sociedade brasileira e é algo que promovemos em nossa estrutura organizacional”, aponta Cristiane, lembrando que 43% das posições de liderança na filial brasileira são ocupadas por mulheres. Além disso, explica, a crença nos benefícios sociais da equidade de gêneros “não é criação nossa”: “Estudos mostram que US$ 12 trilhões podem ser adicionados ao PIB global até 2025 se nos comprometermos com o avanço da igualdade de gêneros”.

Tal como na PepsiCo, o viés da sustentabilidade tem fundamento econômico na Mexichem Brasil, detentora da marca Amanco, que fabrica tubulações plásticas. “A Amanco é conhecida como a marca da inovação desde que foi lançada no Brasil, há 12 anos. Isso faz parte dos nossos valores e estratégia de negócio”, resume Fábia Guerra, responsável pela área de Marketing e Comunicação do grupo. “E um dos diferenciais do nosso processo de crescimento é a gestão de triplo resultado, apoiada nos pilares de sustentabilidade, marca, inovação, pessoas, serviços e eficiência operacional.”

Consoante a estas diretrizes, conta, “sendo a condução de água o principal motivo das nossas operações, optamos por trabalhar diferentes iniciativas voltadas à preservação dos recursos hídricos no planeta, impactando a sociedade como um todo. Começamos com um programa interno de economia de água que gerou, nos últimos dois anos, uma demanda 17% menor nas sete fábricas.” Ao lado disso, desde 2017, a Amanco se associou ao Moradigna, negócio social cujo objetivo é erradicar a insalubridade de casas localizadas em regiões carentes e atingidas pelo mofo e a umidade, para doar produtos para as reformas e promover cursos de capacitação. Nesta primeira fase do projeto, cem obras foram contempladas nos bairros do Itaim Paulista e Jardim Pantanal, em São Paulo; até 2020, a meta é beneficiar 3 mil famílias.

Modelo em xeque

Para o futuro da atividade fabril, que depende de recursos naturais para se manter, o cenário não é dos melhores. Tudo indica que a parceria com o planeta está se esgarçando: até 2050, a população atual do globo, calculada em 7,6 bilhões, será acrescida de mais 2 bilhões de pessoas, segundo a ONU, e elas vão precisar de mais luz, água e alimentos. Desde já, porém, os recursos não-renováveis se mostram insuficientes. Seria preciso 1,7 planeta para suprir a atual demanda de insumos.

Perspectivas como a explosão habitacional urbana e o surgimento de novas pragas e doenças por conta do aquecimento global, estão colocando em xeque o modelo de extração, fabricação, consumo e descarte, apontado como responsável pela degradação ambiental em curso. A pressão social sobre as grandes corporações nunca foi tão efetiva. Atentas a essa realidade, elas vêm promovendo uma verdadeira revolução verde interna, numa corrida pela sustentabilidade jamais vista antes.

A transformação da Schneider Electric ao longo de 170 anos espelha essa condição. Focada inicialmente na extração siderúrgica, a empresa enveredou pela produção de equipamentos de distribuição de eletricidade e hoje opera em sintonia com o conceito de Indústria 4.0. “O próprio negócio da Schneider é a sustentabilidade”, pontua Regina Magalhães, gerente de Sustentabilidade & Inovação para a América do Sul. “E sustentabilidade não é filantropia; é uma estratégia de negócio. Todo o nosso core business consiste em promover eficiência energética e baixa emissão de carbono.”

O desafio da empresa é imenso, reconhece a executiva: até 2020, 30 bilhões de aparelhos com acesso à web devem aumentar o consumo de energia em 50%. Para contrabalançar, a Schneider persegue soluções em gestão de energia elétrica e automação cada vez mais arrojadas. “Em 2016, geramos uma economia de 3TWh (Terawatt-hora) de energia aos nossos clientes, o suficiente para abastecer 1,5 milhão de moradias durante um ano”, calcula Regina. “São R$ 1,28 bilhão que deixaram de ser gastos, o bastante para modernizar 300 mil pontos de iluminação pública do Rio de Janeiro”, exemplifica, informando que “mais de 381 mil toneladas de CO2 também deixaram de ser emitidas na atmosfera, o equivalente ao que 140 mil carros populares lançam no ambiente por ano”.

Para mensurar seu compromisso com o desenvolvimento sustentável, a Schneider Electric também faz uso de um conjunto de indicadores de performance global interna, o Barômetro Planeta & Sociedade, sendo que os resultados financeiros e não-financeiros obtidos em 2017 superaram as metas, segundo Regina. Exemplo: o parâmetro “10% de redução na emissão de CO2 no transporte”, que se aplica aos fretes de curta e longa distância e resulta da tomada de decisão quanto ao modal que apresenta melhor custo-benefício entre economia de divisas e restrições ambientais, “foi além do objetivo”. Para o quinquênio 2015-2020, a organização almeja resultados ainda mais ambiciosos: trabalhar com 80% de energia renovável, poupar a emissão de 100 milhões de toneladas na atmosfera; evitar o consumo de 100 mil toneladas de recursos primários por meio de programas de coleta seletiva e reciclagem e integrar 90% dos colaboradores ao plano Schneider de equidade de remuneração por gênero são alguns deles.

Simbiose socioambiental

A L’Oréal é outra empresa cuja cultura se imbuiu de boas práticas socioambientais, incorporando-as à estratégia de negócio. “Nós não queremos apenas executar o nosso programa de sustentabilidade; queremos vivenciá-lo e transformar o nosso negócio. Somos atores de mudanças e uma companhia que se integra com um futuro mais sustentável, responsável e inclusivo”, define a diretora de Sustentabilidade Maya Colombani.

Consoante a esta visão, a organização elegeu as mudanças climáticas e o protagonismo social como drivers para orquestrar um grande número de ações que visam zerar até 2020 a emissão de carbono nas operações e incorporar a eletricidade verde em todas as unidades até 2018. “Nossos compromissos são inegociáveis”, declara a executiva da L’Oréal, que, ano passado, recebeu o prêmio de Melhor Empresa em Mudanças Climáticas do Guia Exame e hoje integra um seleto grupo de 11 companhias globais que assumiram o compromisso de que todas as embalagens de produtos serão 100% reutilizáveis, recicláveis ou compostáveis até 2025. Para tanto, além de ter conseguido diminuir o consumo de água em 42%, a operação no Brasil já faz uso de papel de origem certificada e embalagens de plástico à base de cana de açúcar em todos os produtos da sua linha profissional.     

A serviço da mulher – e em especial da mulher negra, sempre presente nas suas campanhas –, a companhia também investe em protagonismo social e na equidade entre gêneros. Integrando o projeto internacional de inclusão feminina e social da Fundação L’Oréal (“Beauty for Better Life”), a Casa das Belezas, em parceria com a Instituição Casa do Menor – agora funcionando também no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro –, visa profissionalizar jovens de comunidades carentes que querem ingressar na carreira de cabeleireiro.

O programa L’Oréal-UNESCO-ABC para Mulheres na Ciência, concedido anualmente a 15 jovens pesquisadoras do mundo que trilham um percurso de excelência na investigação científica, permitiu eleger, ano passado, uma química farmacêutica brasileira, Rafaela Ferreira, para receber o prêmio global International Rising Talents por seu trabalho sobre a Doença de Chagas.

“Dar uma contribuição relevante para o bem-estar da humanidade, além de lucro”, é o que move a Hewlett-Packard em direção a um ecossistema de economia circular, preconiza Kami Saidi, diretor de Supply Chain para a América Latina. “A sustentabilidade é uma força poderosa para a inovação. Ela promove o progresso no que se refere às nossas prioridades de negócios”, resume. Em 2004, ele foi indicado para orquestrar “o lançamento da semente da gestão sustentável integrada” na HP do Brasil. Formou seu Green Team, com 120 profissionais, e investiu em cultura e modelo organizacional.

“A HP sempre teve uma preocupação sistêmica com sustentabilidade: entre seus questionamentos, figuram a pegada de carbono, o tipo de emprego gerado, a destinação dos resíduos gerados. No começo, falávamos de qualidade do produto; depois, passamos a avaliar o impacto ambiental gerado pelo transporte desses mesmos produtos; em seguida, abrimos a discussão para a fonte dos recursos usados e, agora, falamos em design for quality”, explica.

Ciente de que a integração da sustentabilidade com o modelo de negócio deve agregar um valor perceptível ao consumidor, Saidi firmou parceria com o Akatu, ONG que trabalha em prol do consumo consciente, e passou a cuidar de todos os elos da cadeia produtiva sob a lente do desenvolvimento sustentável. Instituiu o “Zero Waste”, visando um modelo de produção sem geração de resíduos em aterros sanitários; o “HP Planet Partners”, de logística reversa e reciclagem, e o “Smart Waste”, responsável pela mensuração e melhor reaproveitamento de matérias-primas recicladas na empresa.

Pelos exemplos dessas empresas, não há razões para supor que a responsabilidade socioambiental poderia deixar de participar do movimento de convergência que hoje abarca todos os setores da economia e impacta a própria estratégia de negócios das organizações.